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O reinventor da Arquitetura

07/12/2012

 

O reinventor da Arquitetura

Por Ferreira Gullar*

 
Oscar Niemeyer, concluiu o projeto para um novo museu a ser construído em Valparaiso, no Chile, ao completar 100 anos, em 2007. Um museu inovador, como tudo o que esse arquiteto tem feito ao longo de sua vida, desde aquele distante dia de 1937, quando modificou o projeto de Le Corbusier para o então Ministério da Educação e Saúde, hoje Palácio Gustavo Capanema. Bastou aumentar a altura das colunas, de quatro metros, do projeto inicial, para nove, e tudo mudou de repente. Essa intuição do espaço arquitetônico e da forma nova marcou toda a carreira de Niemeyer, a quem se deve a renovação da linguagem da arquitetura moderna, ao criar o conjunto da Pampulha.
 
Nem todos conhecem o episódio de que resultou a mudança do prédio do MES. O desenvolvimento do projeto de Le Corbusier fora entregue a uma equipe de jovens arquitetos brasileiros, chefiada por Lúcio Costa, e da qual Oscar fazia parte. Sozinho em sua prancheta, esboçou as mudanças que chamaram a atenção dos seus companheiros e um deles, empolgado, foi chamar Lúcio Costa para vê-las. Oscar, então, amassou o papel onde estava o desenho e jogou-o pela janela. Mesmo assim, Lúcio mandou apanhá-lo na rua e decidiu introduzir no projeto original as sugestões de Oscar. O próprio Le Corbusier, mais tarde, ao ver o edifício construído, adotou-o como se fosse o projeto original.
 
Essa relação de Oscar com Le Corbusier teria continuidade, mais tarde, quando se realizou um concurso para a construção da sede da ONU, em New York. Oscar não levou projeto seu e, quando lá chegou, discutia-se a aprovação de um projeto do mestre Corbusier. Sucede que o presidente do júri exigiu de Oscar que também apresentasse um projeto. De noite, no hotel, ele o esboçou e, no dia seguinte, quando o mostrou ao júri, foi aceito por unanimidade. Le Corbusier, inconformado, procurou Oscar e sugeriu a fusão dos dois projetos, o que o brasileiro, constrangido, admitiu. E esse foi o projeto construído.
 
A arquitetura moderna, desde seu começo, priorizava a forma funcional, despojada, limitando o vocabulário arquitetônico à linha reta e à concepção ortogonal. Foi o nosso Oscar que, buscando explorar as possibilidades plásticas do concreto armado, nela introduziu a forma curva, que mudou a linguagem da arquitetura mundial.
 
Se é verdade que isso começou com a capela e o cassino da Pampulha, iria desenvolver-se em numerosos outros projetos, que deram a Oscar Niemeyer justo prestígio internacional.
 
Foi Juscelino Kubitschek que, como prefeito de Belo Horizonte, em 1940, convidou Oscar para projetar o conjunto de Pampulha. E foi esse mesmo Kubitschek que, eleito presidente da República, em 1955, chamou-o para projetar a nova capital do Brasil. Oscar aceitou projetar os edifícios principais mas sugeriu que o plano urbanístico fosse escolhido mediante um concurso aberto a todos os arquitetos e urbanistas do mundo. Como se sabe, o concurso foi ganho por Lúcio Costa, cujo plano piloto serviu de base à construção de Brasília, inaugurada em 1960. Oscar transferiu-se para o Planalto Central, onde se ergueria a nova capital e lá, com uma equipe de arquitetos começou a projetar os palácios oficiais e os ministérios.
 
Mas a preocupação com a renovação da arquitetura estava presente, nele, desde o primeiro momento. Conforme suas próprias palavras, quis, nos edifícios de Brasília, alcançar a unidade entre a estrutura dos edifícios e a forma arquitetônica, isto é, que a forma do edifício fosse resultado da concepção estrutural e não um elemento superposto a ela, meramente decorativo. Essa concepção o reaproximou dos propósitos iniciais da arquitetura moderna quando, em seu nascedouro, ao rejeitar o decorativismo revival, firmou-se na tese de que “a forma segue a função”. Não obstante, Oscar estava longe de retornar à forma meramente funcional, empobrecedora da linguagem arquitetônica. Sua intenção era, na verdade, usar as possibilidades técnicas da engenharia de construção para inventar formas arquitetônicas inusitadas e surpreendentes. Exemplo disso foi o edifício do Congresso Nacional, com suas duas cúpulas invertidas, simbolizando a natureza política da Câmara e do Senado.
 
Outro exemplo, igualmente representativo da inovação estrutural, é o Palácio do Planalto, sede do poder executivo, com um vão livre de 50 metros, até então jamais conseguido em qualquer obra arquitetônica. A tarefa de realizar os cálculos capazes de viabilizar tal construção ficou a cargo de Joaquim Cardozo, então calculista das obras de Oscar. Desse modo, Brasília não foi apenas a concretização de um sonho arrojado — a construção em tempo recorde de uma cidade inteira — mas sobretudo um momento marcante na história da arquitetura mundial, também pelo arrojo de sua concepção urbanística e arquitetônica.
 
De lá para cá, Oscar Niemeyer continuou o seu trabalho, criando obras de indiscutível significação para a arquitetura brasileira, como o Memorial da América Latina, em São Paulo, e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, para citar apenas estes. Pousada à margem da baía, o museu, que lembra também um cálice ou uma flor, tem uma única sustentação — uma haste, um talo —, que mergulha num espelho d’água. O acesso a ele se faz por uma passarela que dá caprichosas voltas no ar antes de tocar o edifício. Essa passarela, além de enriquecer plasticamente o conjunto arquitetônico, faculta ao visitante uma extraordinária sensação de voo antes de pousar na borda da nave. Ele então penetra no espaço do museu propriamente dito, onde viverá uma nova e inesperada experiência: o edifício abre-se para fora em toda a sua volta, possibilitando ao visitante a vista da paisagem em volta: o mar aberto e, do outro lado da baía, distante, a silhueta da cidade do Rio de Janeiro com seu horizonte de montanhas.
 
Hoje esse museu integra um conjunto arquitetônico em construção — o “Caminho Niemeyer” — que, quando completo, compreenderá 11 edificações e se estenderá desde a Estação das Barcas, no centro de Niterói, até Charitas, destacando-se um museu de cinema, duas catedrais, um teatro popular e um museu de cinema.
 
A arquitetura tem que surpreender — diz Oscar Niemeyer, que soube inserir espantos e encantos no cenário em que transcorre nossa existência. Ele mal suporta a desigualdade que marca profundamente a sociedade brasileira. As paredes de seu ateliê estão cobertas de desenhos e frases de protesto contra essa desigualdade. Por isso, e apesar de tudo, ao completar cem anos de vida, ele continua a criar formas surpreendentes, plenas e belas como ainda há de ser a vida.
 
As obras deste arquiteto brasileiro estendem-se por inúmeros países, tornando-se, em cada um deles, um marco na paisagem arquitetônica, como é o caso da Universidade de Argel, na Argélia; o Centro Cultural do Havre, na França. Ou do prédio sede da editora Mondadori, em Milão. Niemeyer é o arquiteto que mais projetos concebeu e que mais obras teve construídas em toda a história da arquitetura mundial.
 
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*FERREIRA GULLAR é um dos mais importantes poetas brasileiros surgidos após o movimento modernista de 1922, Ferreira Gullar pratica uma poesia de cunho social, embora sensível às emoções cotidianas, do indivíduo. Domina a forma poética, mas adota palavras e versos tidos como “antipoéticos” ou “sujos”. José Ribamar Ferreira, autoralmente Ferreira Gullar, nasceu em São Luís (MA) em 10 de setembro de 1930. Em 1950, premiado em concurso de poesia do Jornal de Letras depois de estrear com a coletânea Um Pouco Acima do Chão (1949), mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1954, publicou A Luta Corporal, obra considerada precursora do movimento paulista de poesia concreta. Após romper com o concretismo, liderou o grupo neoconcreto carioca, com a publicação, em 1959, do ensaio-manifesto Teoria do Não Objeto. Em Poemas (1958), já punha em prática algumas idéias neoconcretas.
 
Em 1961, encerrou a fase formalista e aderiu à poesia politicamente engajada do movimento Violão de Rua, do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), do qual era presidente quando sobreveio o golpe militar de 1964. Dos poemas de cordel da década de 1960, sua obra evoluiu para a complexidade de Dentro da Noite Veloz (1975) e Poema Sujo (1976), ambas frutos de sua experiência como exilado na Argentina, a partir de 1971. Seguiram-se Na Vertigem do Dia (1980) e Barulhos (1987).
 
Como ensaísta, suas principais obras são Vanguarda e Subdesenvolvimento (1969) e Uma Luz no Chão (1978). Na área das artes plásticas publicou Sobre Arte (1984), Etapas da Arte Contemporânea (1985) e o mais genérico Indagações de Hoje (1989). Para o palco, escreveu Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come (1966), com Oduvaldo Viana Filho, e Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória (1968), com Dias Gomes, reeditado em 1982 sob o título de Vargas. Em 1994 reeditou A Luta Corporal, já reconhecido unanimemente como um marco na história da poesia brasileira. Lançou em 1999 a volume de poesia Muitas Vozes, obra com a qual foi agraciado com o prêmio Jabuti na categoria poesia. Voltou a receber a distinção em 2007, desta vez na categoria crônicas e contos, com o livro Resmungos. A obra foi considerada também o livro do ano em ficção.
 
Em 2008, sua obra completa foi lançada pela editora Nova Aguilar sob o título Poesia Completa, Teatro e Prosa.

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